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Quando um modelo de vida lhe parecer bem, siga-o, mas, por favor, não queira que os outros também o sigam; o pregador é intolerável. - Agostinho da Silva

domingo, 1 de agosto de 2010


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Entrevista a Dom Quixote de la Mancha e Sancho Pança

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Os meus colegas tiveram o privilégio de assistir a duas entrevistas inéditas, ouviram as opiniões de Dom Quixote de La Mancha e Sancho Pança sobre o mundo de hoje e a globalização,
Eu penso que as personagens de Cervantes tal como os heterónimos de Pessoa são personagens poéticas e com uma identidade humana enorme que todas essas personalidades se juntam naquilo que somos hoje, eu acredito que dentro de nós existe um pouco de Dom Quixote e Sancho Pança, por isso espero que com alguma imaginação consigam identificar ambos entrevistados, ao preparar esta entrevista colocou-se me uma questão á qual não sei responder
Com o avanço da globalização o homem será mais plural ou seja a sua identidade será mais universal e mais livre ou o homem perde a sua identidade cultural e é cada vez mais uma maquina de pensar colectiva.

Estas entrevistas foram imaginadas por mim e apresentadas na aula com a colaboração da minha colega Claudia Encarnação.

Entrevista a Sancho Pança
Sancho Pança qual a importância de viajar pelo mundo?

Eu e o cavaleiro Dom Quixote corremos as terras de La Mancha, de Aragão e da Catalunha, e foi uma aventura muito difícil, lutar contra gigantes que não passavam de moinhos de vento, foi muito importante para Dom Quixote que viveu o seu sonho até ao fim com muita paixão e muita loucura mas também foi importante para mim porque tive a maior lição da minha vida, (depois de uma pausa e de respirar fundo respondo) compensa ser fiel a quem amamos e respeitamos. Tenho a certeza que as terras por onde passamos nunca mais foram iguais, o Dom Quixote será eternamente lembrado pela sua coragem e pela sua loucura.
O que significou seres sempre rotulado de cobarde?
Eu ria-me das piadas do povo e não me importava com o que diziam a meu respeito.
Como foi cuidar de Dom Quixote?
Não foi nada fácil ser escudeiro, apesar de Dom Quixote ter apenas uma lança como arma de que nunca se separava, eu também tinha que dar orientações nas batalhas. Dom Quixote foi um herói para mim, mas tive muitas vezes que o levantar do chão de violentas tareias e de limpar suas feridas ensanguentadas, mas Dom Quixote era valente e o seu sonho dava-lhe sempre forças para continuar, a verdade é que eu sempre o tratei como se fosse meu filho.
Dom Quixote tinha um sonho, tu seguiste o sonho do teu amo e cavaleiro ou apenas seguias o sonho de ter uma ilha?
Sei que poucos acreditam em mim, no inicio talvez o titulo de conde fosse a minha principal motivação (depois de uma pausa) ser conde, mas como tudo na vida quando nos lançamos á estrada não vale a pena olhar para traz.
Como foi governar a ilha prometida por Dom Quixote de la mancha mesmo apenas por uns escassos dias?
Foi bom mandar, mesmo ainda que fosse num rebanho de gado, até então só tinha experiencia com gansos, também tinha fartura de comer e vida assim não poderia querer melhor, Dom Quixote me deu todos e melhores conselhos possíveis para eu ser um bom Conde. Mas não quero falar mais dessa experiencia.
E hoje, seria capaz de governar uma ilha?
Hoje já não existem ilhas, pelo menos como no meu tempo, hoje os países interagem e aproximam todas as pessoas, existem novos medicamentos, novos equipamentos cirúrgicos e técnicas, aumento na produção de alimentos e até a viagem que eu fiz durante meses e anos no meu Russo, hoje seria feita em horas num cómodo automóvel.
Que conselho darias as Nações mais pobres?
Temos que ter em conta que a realidade é diferente agora porque começamos a viver numa comunidade global. Quase todos os países chegaram a um acordo compulsivo relativamente às emissões de gases de efeitos de estufa. A economia global deu origem à Organização Mundial do Comércio, ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional, instituições que desempenham — porquanto imperfeitamente — algumas funções da governação económica global. Há um tribunal penal internacional a dar os primeiros passos. A mudança das ideias acerca da intervenção militar com fins humanitários mostra que estamos a desenvolver uma comunidade mundial preparada para a aceitar a sua responsabilidade na protecção de cidadãos de estados que não podem ou não querem protegê-los de massacres ou genocídios. Em declarações e resoluções sonantes, as mais recentes das quais proferidas na Cimeira do Milénio das Nações Unidas, os líderes mundiais reconheceram que o alívio do sofrimento dos países mais pobres do mundo é uma responsabilidade mundial, penso que as Nações mais pobres tem que alimentar esperança e lutar com todas as forças e nunca deixar de sonhar.
Sancho Pança o que pensas do TGV?
Meu Russo e até o Rocinante não deviam gostar, (pausa para pensar) cada homem deve montar o animal consoante o seu estatuto, quem não pode andar depressa vai mais devagar.
O mundo seria melhor se existissem mais Dom Quixotes?
Sim sem dúvida, é preciso mais do que heróis são precisos homens com sonhos com ideias e que lutem e que sirvam de exemplo para as gerações futuras. Homens que defendam a liberdade e a democracia.
Sancho Pança acredita que a globalização vai levar a Democracia a todos cantos do mundo?
Precisamos ainda de aprender a evitar que os organismos globais se transformem quer em tiranias perigosas quer em burocracias auto-alimentadoras e, ao invés, se tornem eficazes e responsáveis perante as pessoas cujas vidas afectam. Trata-se de um desafio que não deveria estar além do alcance dos melhores espíritos nos campos da ciência política e da administração pública, uma vez tendo-se ajustado à nova realidade da comunidade global e centrado a sua atenção nas questões da governação que ultrapassa as fronteiras nacionais.



Entrevista a Dom Quixote de La Mancha
Dom Quixote de La Mancha é um herói ou uma fraude?
Eu sou aquilo que quiserem os meu críticos literários os historiadores e todos os intelectuais, na verdade apenas me interessa a opinião das crianças, para elas é importante eu ser um herói para o resto do povo bem que posso ser uma fraude ou até mesmo um louco.
Dom Quixote de la Mancha um sonhador tem que ser um louco?
Eu penso que sim.
Dom Quixote de la Mancha pode justificar?
"Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos para com seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam". (Depois de uma pausa e de coçar a cabeça responde)
A liberdade, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens. Digo isto, porque parecia-me que estava metido entre as estreitezas da fome; porque os não gozava com a liberdade com que os gozaria, se fossem meus: que as obrigações das recompensas, dos benefícios e mercês recebidas são dádivas do céu, esta não é a minha loucura.
Porque escolhes-te Sancho Pança como escudeiro?
Não foi por ser um grande comilão, mas porque apesar de Sancho Pança não sabe ler nem escrever sempre soube me escutar, e sempre percebeu as minhas histórias como ninguém
Quais as suas qualidades?
Ser fiel e humilde e também amar a sua família e ser um grande comilão e apreciar a comida como ninguém
O que foi mais importante na tua vida libertar um escravo condenado as galés ou enfrentar um leão olhos nos olhos?
Foi enfrentar o leão como mais nenhum homem foi capaz, esse momento não se repetiu, libertar um escravo foi apenas um entre muitos e muitos que ficaram por libertar e ainda hoje existem.
Preferias salvar o mundo a salvar Dulcineia?
Mas salvar Dulcineia seria salvar o mundo, Dulcineia era a minha Princesa, nos meus sonhos e no meu mundo apenas existiam a Princesa Dulcineia e os monstros e os moinhos de vento.
Travas-te muitas lutas enfrentas-te muitos inimigos, o que aprendes-te na tua viagem?
Como as coisas humanas não são eternas e vão sempre em declinação desde o princípio até ao seu último fim, especialmente as vidas dos homens. É um desafio moral e intelectual assustador, mas não se pode voltar-lhe as costas. O futuro do mundo depende da forma como o enfrentarmos, essa foi a minha lição.
Existe nos dias de hoje alguém como o feiticeiro Malfatto?
Cada homem tem o seu inimigo, Malfatto era o meu, hoje não tenho mais inimigos e se os tenho, ignoro-os.
O que pensas do povo, e quais os moinhos de vento de hoje?
Só se consegue odiar alguma coisa com tanta violência quando uma parte de nós próprios também a ama. Eu não compreendo porque existem tantos crimes violência e guerra. O povo um dia vai descobrir como acabar com os seus moinhos de vento.
O que significa para ti a aldeia global dos dias de hoje?
Considero o mundo inteiro como a minha paróquia. (Pausa para pensar)
Há milhões de seres humanos excluídos deste processo de globalização, sem possibilidade de qualquer interacção a nível global. E mesmo para aqueles que têm acesso e dominam a técnica, não é seguro que o excesso de informação se traduza num maior conhecimento cultural, não apenas porque é necessário ter adquirido competências intelectuais que lhes permitam aprender? Capacidade de contextualizar a informação, de interpretá-la, de torná-la sua? Mas, ainda, porque escapa a esta voragem informática a complexidade e a riqueza de todos os processos humanos, as dinâmicas de sobrevivência, de resistência e de desenvolvimento, que o viver local dos diferentes povos supõe e envolve.
Contudo, temos de reconhecer que, para os que têm condições efectivas de participação no mundo globalizado, há importantes oportunidades de comunicação e de interacção com culturas distantes. Tal como é justo reconhecer que há, hoje, manifestações, sobretudo desportivas? Os jogos olímpicos, o campeonato do mundo de futebol, etc. Que, por terem uma cobertura informativa alargada, criam um sentimento de pertença a uma humanidade comum, em que os valores da igualdade, da solidariedade, da tolerância e da justiça tendem a ganhar um sentido global.
Vai haver mais paz ou mais guerra no mundo com a globalização?
Se para haver Paz tiver que haver guerra, o homem que vencer a guerra só tem estar do lado dos mais humanos, mas os seres ditos humanos são tão estranhos, tão pouco humanos por vezes.!!!!

Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo.

Miguel de Cervantes